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Oferendas não são porcarias!
Escrevo este pequeno texto, no intuito, de esclarecer alguns preconceitos acerca das ofertas que muitos adeptos de religiões afrobrasileiras, sobretudo, no "final de ano" realizam na natureza. Nesse caso, dividirei  em três pontos:

1 – Sabe-se historicamente que no início do século passado as manifestações afrobrasileiras foram perseguidas de modo inexorável pela Igreja Católica e pela polícia republicana. Os ideais positivistas de “ordem e progresso” e a analogia do homem com uma máquina não permitiam, portanto, qualquer "avaria social". Assim sendo, o negro, mulato/vadio (pejorativos) eram entendidos como engrenagens deficientes que deveriam ser consertadas. Nesse caso, preso, detido ou morto. Mais do que isso, suas expressões culturais como linguagens, crenças religiosas, organizações deveriam ser extintas para um melhor funcionamento dessa sociedade mecanicista e higienista (de limpeza). Deste modo, sua cultura africana, sobretudo, ao que concerne suas divindades foram muito combatidas. Vários adeptos dos Candomblés, Catimbós e Jurema foram mortos, tendo seus terreiros queimados, seus elementos religiosos apreendidos e etc. Como muito de seus fundamentos eram realizados em ruas, encruzilhadas e matas, a polícia, em contra partida, dizia estabelecer a ordem. Mesmo porque, a ideia de higienismo prevalecia, associando, portanto, essas práticas a sujeira e porcaria.    

2 – Com o passar do tempo, AINDA HOJE, essa expressão higienista e positivista de sociedade ainda se faz mais forte, por conseguinte, reproduzida por diversas pessoas. É comum ouvir ainda hoje entre a população jargões do tipo: “fulano é muito porco”, “ciclano mexe com porcaria”, logo; conclui que se trata pejorativamente de um “macumbeiro”.   

3 – Sabe-se que pensar as religiões afrobrasileiras é buscar sempre uma harmonia com a natureza. Isto posto, percebemos neste final de ano uma enxurrada de presentes inorgânicos às divindades, como barcos à divindade do mar, flores artificiais, vidros de cosméticos e etc. Creio que o bom senso deve prevalecer, pois, as próprias comunidades terreiros são ambientalistas, a ponto de, mesmo imerso a centros urbanos, preservar em seu núcleo árvores frutíferas, plantas e frondes consagrado às divindades. Assim como proteção aos animais. Ao contrário do que muitos pensam, os animais não são, apenas, utilizados em rituais de “sacralização”. Vale ressaltar, que neste último, a comunidade usufrui do mesmo. Todavia, o "modismo" encarnado, sobretudo pela mídia clássica distorce a relação consonante que as comunidades afrobrasileiras cultivam a natureza. A mídia mostra atores e cantores (as) realizando oferendas sintéticas e dissonantes com a natureza só em datas específicas como início e final de ano. Os adepto assíduos dessas comunidades terreiros sabem que a relação com o sagrado é constante. Além das lentes falsas desta mídia e dos preconceitos embutidos nessa sociedade que ainda não superou o higienismo e postitivismo.









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